Reflexões Ambientais: O Ambiente de Trabalho acadêmico

Para entender como o estudo do trabalho acadêmico, ou seja, aquele realizado nas universidades se insere no tema Psicologia Ambiental, neste texto vou apresentar alguns aspectos que caracterizam o ambiente onde os pesquisadores desenvolvem a pesquisa que será depois publicada para conhecimento do público.  A psicologia ambiental considera a interação recíproca entre as pessoas e o ambiente. O trabalho realizado nas universidades assim como qualquer outro trabalho ou atividade necessariamente ocorre em um ambiente e qualquer ambiente exerce influência sobre as pessoas que ali estão. Com o trabalho acadêmico certamente não é diferente, mas algumas de suas características peculiares nos fazem pensar um pouco mais sobre qual é o ambiente onde se faz este trabalho. O trabalho acadêmico ou mais especificamente a pesquisa acadêmica ocorre obviamente na universidade, certo? Não necessariamente ou não somente. Vejamos como e onde acontece o trabalho realizado pelos pesquisadores nas universidades.

Na universidade, o processo de produção do conhecimento que começa com uma ideia e culmina na publicação dos resultados de uma pesquisa envolve o compartilhamento de informações entre os pesquisadores nos laboratórios, nos congressos e nos corredores, conversas entre professores e alunos e leitura de artigos e livros. Para entender melhor esse processo é preciso refletir sobre como se organiza o trabalho acadêmico: (1) Hierarquia – os pesquisadores não se importam muito com a hierarquia, na prática da pesquisa acadêmica há uma mistura de competências onde cada um pode ter mais conhecimento sobre o seu tema de pesquisa do que seus pares com maior experiência. (2) Mobilidade – os pesquisadores não têm um local único de trabalho. É claro que cada professor tem sua sala, mas a mobilidade é parte importante do trabalho acadêmico. O pesquisador desloca-se para ir ao laboratório e para dar aulas, participa de seminários e defesas de tese dentro e fora da universidade, participa de eventos científicos e cursos dentro e fora do país, coleta dados em locais diversos, atende alunos dentro e fora do ambiente acadêmico e ainda trabalha em casa em horários diversos. (3) Autonomia – os pesquisadores têm muita autonomia para gerenciar seu próprio tempo, planejar atividades, escolher seu tema de pesquisa e métodos de trabalho, decidir como dar aulas e onde publicar sua produção científica. No entanto, precisam seguir as regras e normas das agências de fomento por meio das quais obtêm o financiamento para a execução dos projetos de pesquisa.   Os pesquisadores, portanto, devem conhecer e seguir as regras tanto da universidade e sua estrutura administrativa, quanto das agências de fomento com seu funcionamento próprio. (4) Pesquisa em rede – os pesquisadores costumam se organizar em grupos formados por pessoas com diferentes graus de experiência e diferentes níveis de formação, com objetivos de pesquisa semelhantes. Estes grupos de pesquisa estabelecem parcerias e intercâmbios com outros grupos semelhantes cujos interesses de pesquisa sejam compatíveis, formando uma rede.

Mas qual é afinal o ambiente de produção acadêmica? A resposta é que não dá pra apontar um ambiente único, sendo este composto tanto pelo laboratório na universidade, quanto pela sala de aula, pela biblioteca, pelos ambientes virtuais, pelos diversos locais onde ocorram seminários, congressos e outros eventos científicos, assim como qualquer outro lugar onde ocorram trocas de informações relevantes para a construção do conhecimento. A psicologia ambiental aplicada ao contexto do trabalho acadêmico deve considerar, portanto, um ambiente amplo, concreto e virtual, local, nacional e internacional que contemple uma comunidade de pesquisadores em constante interação na construção do conhecimento científico.

Jussara Prado

 

Para saber mais:

Alvarez, D. (2010). A comunicação no trabalho dos professores e pesquisadores: um estudo da atividade dos físicos. R. Eletr. de Com. Inf. Inov. Saúde. Rio de Janeiro, 4(2), 22-32.

Alvarez, D. & Vidal, M. C. R. (2001). A organização do trabalho na produção acadêmica: redes de pesquisa e estratégias de ação. In: XXI Encontro Nacional de Engenharia de Produção – International Congress on Industrial Engineering, 2001, Salvador.

Callon, M. (1989). La science et ses reseaux: genese et circulation des faits scientifiques. Paris: Éditions La Découverte.

Leite, F. C. & Costa, S. (2006). Repositórios institucionais como ferramentas de gestão do conhecimento científico no ambiente acadêmico. Perspectivas em Ciência da Informação, 11(2), 206-219.